O “coronavírus” e a pressa de Prometeu


                                         Antonio Sá da Silva

Muitas são as virtudes atribuídas ao deus mitológico Prometeu, mas vou falar agora só de uma, a do Prometeu apressado. Alguns classicistas dizem que o Protágoras, de Platão, foi o primeiro livro na história do Ocidente a colocar a necessidade e a esboçar um projeto de vida pública; antes dele, prevalecia o entendimento de que o bem-estar humano e da polis dependia, exclusivamente, do arbítrio da natureza e da sorte de cada um. No diálogo, Sócrates apresenta o jovem Hipócrates (o patrono das ciências médicas) ao sofista Protágoras para que o ensine a ser um estadista, mas antes exige a prova de que o conhecimento pode melhorar a vida das pessoas. O famoso professor lhe contou uma história…

– Quando Zeus criou o mundo, entregou a Prometeu uma sacola cheia de virtudes para distribuir a cada uma das criaturas, a fim de que tivessem o necessário para viver bem sem atrapalhar o coletivo; por um descuido qualquer, este deus terceirizou o trabalho a Epimeteu, o qual se dizia preparado para o ofício; a decisão não poderia ter sido pior: o fanfarrão deu uma boa acuidade visual para a águia que mora nos penhascos, um tecido adiposo extenso para o urso polar, uma agilidade corporal para a cobra que ficou sem pernas, etc.; mas logo ao fim do primeiro dia, o despreparo do rapaz veio à lume: não havia mais nada para distribuir e o homem não recebera nada, estava em flagrante desvantagem em relação aos animais porque ficara nu, descalço, desarmado e ignorante; então Prometeu percebeu a burrada que fez e saiu na correria… entrou na oficina onde  Efesto e Atenas produziam a sabedoria da vida, roubou o fogo dos deuses e deu aos humanos; fomos então salvos da crueldade com essa virtude preciosíssima que chamamos de ciência.

Prometeu descobriu que o conhecimento e as artes poderiam salvar a humanidade da ferocidade da natureza e da armadilha dos mentirosos; nasceu assim a medicina, a engenharia, a economia, a política, etc.; percebeu que com estudo e planejamento, evitamos que catástrofes nos peguem desprevenidos e impossibilitem nossa reação; Platão gostou tanto desta ideia que defendeu, pela primeira vez, que o Estado era responsável para encampar esse projeto de vida pública. Certamente que o enfrentamento dos malefícios do coronavírus, pelas nações que investem na ciência, educação, saúde pública e segurança social, será mais exitosa; outros países, como o nosso que é governado por criaturas bestiais que usufruem de todos os benefícios da civilização e ao mesmo tempo zoam da cara da população ao dizerem que a terra é plana, que a fraude é uma virtude desde que traga resultados, que estão aptas para governarem porque conversaram com Jesus debaixo de uma goiabeira, etc., têm pressa de revisarem seus critérios de seleção de governantes; aqui estamos mais humilhados porque empoderamos a falácia antissistema e até caçoamos de Hobbes, mas o mundo todo está obrigado a se reinventar; o forte discurso de Emmanuel Macron aos franceses é um sinal nesta direção.

Um filósofo da Idade Média, Santo Tomás de Aquino, disse que a humanidade somente sairia das trevas em que se metera se separasse as “verdades da fé” das “verdades da ciência”; sabia que na intimidade é direito de cada um acreditar no que quiser, mas tinha consciência da urgência de criar universidades (ele próprio foi professor em Paris, uma das primeiras), reorganizar o sistema político e restabelecer a credibilidade na justiça pública. Milhares de pesquisas científicas em andamento foram perdidas recentemente porque o MEC deu uma guinada rumo às trevas, retirando dinheiro das universidades; talvez alguém se lembre de denunciar isto mais tarde ao Tribunal Penal Internacional… mas por ora o Brasil tem outra pressa: a de corrigir a besteira que fez quando ao transformou a eleição presidencial num espetáculo, politicamente e esteticamente indigno de vinte e cinco séculos de história da civilização, chegou ao pior resultado daquele sufrágio e resultou no pior enfrentamento dessa crise humanitária. A molecagem político-administrativa atual precisa urgentemente ser enfrentada como tal, começando, sem querer terceirizar a culpa, por uma atitude verdadeiramente de fé e de compromisso para nos desviar do abismo com o qual livremente flertamos: “Arrependei-vos enquanto ainda é tempo” (Atos dos Apóstolos 3, 19).

 

7 comentarios em “O “coronavírus” e a pressa de Prometeu”

  1. Sábias palavras Antônio Sá. É urgente essa reflexão na sociedade brasileira, pois estamos observando o (des)governo e o descompromisso do Presidente da República com a situação caótica, catastrófica que estamos vivendo.

  2. Muito bom, Antonio. Seria muito esperar o arrependimento de todos os que acreditaram nessa figura indigna, mas creio que esse tem sido o movimento de boa parte deles. Aqui e ali encontramos alguém que ainda apóia esse atraso absoluto, em nome de alguma atitude que sequer sabem pronunciar ou identificar. Nos cabe a altivez do lugar da crítica.

  3. Quanta excelência na análise, professor Antônio. O que me preocupa, na necessidade da retomada dos rumos, é que a Ágora continua tão corrupta e superficial (confesso eufemismo) quanto denunciava Platão. Resta a revolução? Reflito…

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