O que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e o samba de Bezerra da Silva têm hoje a nos dizer sobre a depreciação da ética pública?


Antonio Sá da Silva

A um partido-alto do Rio de Janeiro, Bezerra da Silva, cuja língua afiadíssima denunciou aos quatro cantos e por muito tempo a conivência do Estado com o crime, talvez venha ocorrer daqui a algum tempo o que se deu com Santo Antônio, o santo português do séc. XIII que se diz ter a língua preservada até hoje e por causa do bom uso que fez dela para denunciar as contravenções de sua época. Mas não sejamos ingênuos a ponto de transformar a ALERJ na “Geni” da nação, pois o problema é muito mais grave do que parece quando alguns que fogem da polícia incendeiam outros para, no meio da fumaça, escaparem com vida.

A bem da verdade, quando outro santo, Santo Agostinho, refletindo sobre os motivos que levaram o Império Romano a sucumbir naquele séc. V, afirmou que é pela justiça, pela utilidade comum das pessoas, que os legisladores legislam, que os governos governam e que os juízes julgam: afastados deste compromisso, “tais agentes se convertem numa quadrilha de ladrões e salteadores”. O enfrentamento desse desvio de função não dispõe de uma resposta messiânica, capaz de nos redimir do pecado da corrupção: a história da administração pública não testemunha nada mais auspicioso que a luta entre a “Cidade de Deus” e a “Cidade dos Homens”, como o Bispo de Hipona escreveu e Bezerra da Silva acentuou, isto é, sempre houve e sempre haverá quem vai se esconder “atrás da gravata e do colarinho”, procurando se tornar invulnerável às reprimendas da lei.

Um jesuíta mineiro, Henrique Cláudio de Lima Vaz, para alguns o maior filósofo brasileiro, notabilizou-se em vida dentre outros pelos seus importantes estudos de antropologia cultural; denunciou exemplarmente o grande paradoxo da nossa civilização: a de ser “prodigiosamente avançada na sua razão técnica e vergonhosamente indigente na sua razão ética”. De fato, dispomos hoje de recursos, conhecimento e tecnologia suficientes para erradicar todos os males que atormentam a humanidade desde a sua origem; continuamos, todavia, tão iguais como sempre fomos: egoístas, narcisistas e dissimulados. “A corrupção é só aquilo que os outros fazem”… E parece que nunca se bradou e se silenciou tanto em tão pouco espaço de tempo contra a malversação da coisa pública como agora; como tudo que se usa muito sem cuidado, a palavra “ética” se gastou e talvez nada mais seja para alguns que uma palavra banal como outra qualquer.

Diante deste cenário de terra arrasada, mesmo que por vezes a situação se pareça à de Santo Antônio e do Padre Antônio Vieira quando tiveram por auditório apenas os peixes do mar, é preciso evitar o desolamento de Bezerra da Silva quando chegou a dizer que “para tirar o Brasil desta baderna, só quando o morcego doar sangue e o saci cruzar as pernas”. O momento é muito propício para o velho “político caô caô”, que para se perpetuar no poder, arruma sempre uma veste nova e a moda agora é se apresentar como “político não político”; é propício também para o caô caô que bota pinta de herói, trata o problema da população como um problema de polícia, promove (contraditoriamente) o armamento da população e a indústria armamentista. Não queiramos terceirizar nossa responsabilidade de participar ativamente da discussão dos nossos problemas, por isto que Platão, preocupado com a crise ética que assolava as instituições públicas de sua época e embora não acreditando muito na democracia ateniense, não deixa de nos ajudar a refletir sobre os desafios que agora temos pela frente: “o pior castigo que sofreremos quando abrimos mão do direito de governar é sermos governados por gente pior do que nós”. Anote isto para não esquecer…

Doutor, mestre e especialista em Ciências Jurídico-Filosóficas pela Faculdade de
Direito da Universidade de Coimbra. Professor da Faculdade de Direito da
UFBA, nas disciplinas de Filosofia, Ética, Teoria e Hermenêutica
Jurídica. Advogado.

5 comentarios em “O que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e o samba de Bezerra da Silva têm hoje a nos dizer sobre a depreciação da ética pública?”

  1. Que reflexão atual que Platão trás para o ano de 2018. Grandes contribuições feita por Antônio, vinculando a filosofia com a ética pública.
    Parabéns, belíssimo trabalho.

  2. As canções do saudoso tem roupagem melódica e rítmica envolvente. Contudo , seu objetivo era mesmo através de letras maravilhosas denunciar os verdadeiros bandidos. Os ladrões estão realmente escondidos atrás das gravatas e dos colarinhos..

  3. Impactante! Onde está o conhecimento senão nas coisas mais simples? Uma música, um grande ensinamento.

    Disse meu amigo Antonio de Sá.
    Com voz vibrante,
    calmamente,
    conhecidamente,
    especificamente,
    calorosamente.
    Mas, disse gritando,
    não um grito que ecoa nos ares,
    mas que estronda dentro de nós,
    sacoleja-nos,
    faz-nos acordar do torpedo da miséria de sentimentos
    e nos remete a um espelho que não nos fala: ” você, minha Rainha, é a mais bela” , mas sim: Acorda de sua hipocrisia e viva a realidade dos acontecimentos”
    Wantuil Novais Filho – 09/12/2017

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