Quem receberá “Santos Reis” em casa esse ano? Um Convite à hospitalidade em 2018 depois de um 2017 de muita intolerância no mundo


                                                                            Antonio Sá da Silva

As festas de fim de ano são celebradas na companhia de quem tivemos a alegria de estar juntos num ano e queremos ficar do seu lado no outro que se inicia; isto é compreensível tanto pela consciência de que não somos tão independentes quanto gostaríamos, como pela própria natureza dos afetos: uma pessoa agradável enche de luz a nossa vida e diminui o fardo da existência. Uma vida realmente próspera depende de amigos verdadeiros, daí que Aristóteles insista, em seu tratado da felicidade, que “o homem que vive só é um deus ou um animal”. O que se passa então com a humanidade que de tempos em tempos parece abrir a “caixa de Pandora” e espalhar a inimizade pelos quatro cantos da terra?

O ano de 2017 realmente abusou em atitudes próprias de humanos e que têm a incrível capacidade de deixarem a humanidade mais pobre: desde ações praticadas por vizinhos muito próximos, passando pelas da galera irada das redes sociais até alcançar as de lideranças políticas importantes no mundo, foram muitos os testemunhos de fraqueza humana, expressa na tentativa de rebaixar outros povos ou pessoas que consideram uma ameaça ao seu projeto de felicidade. Se é verdade que sempre existiram pessoas com dificuldade de conviverem com quem tem propósitos de vida diferentes dos seus, se é verdade que essa “patologia” se converteu num “fenômeno social” durante a modernidade a ponto de Locke e Voltaire denunciarem seus riscos para uma existência humana fraterna, hoje em dia se tornou uma “arma de guerra” muito mais destrutiva: como um vírus que se propaga e instala com facilidade em nossas mentes e cidades, a intolerância política, religiosa, sexual, cultural, etc., é de longe a principal preocupação de filósofos morais em um tempo de agressões gratuitas e insanidade generalizada.

Sabe-se que pensadores importantes de nosso tempo como Habermas, Derrida, Taylor, Welzer, etc., teriam respostas importantes para o que se tem chamado de “discursos do ódio”. Mas eu queria aproveitar essas festas de fim de ano e esta última coluna de 2017 de nossa “República de Leitores” para sugerir uma outra reflexão: faço isto invocando uma experiência exemplar… a Festa de Reis. É que para além de uma expressão da religiosidade popular, trata-se de um testemunho valioso de hospitalidade ou pelo menos de tolerância com outras visões do mundo diferentes da que cada um aprendeu desde cedo a defender. A origem dessa tradição está no Evangelho de Mateus e na cultura oral de nosso povo, dando conta de que ao visitarem o recém-nascido na periferia de Belém, aqueles três reis do Oriente (aqueles três sábios da Pérsia, Índia e Arábia que enfrentaram os perigos do deserto e as nações inimigas para presentearem ao novo rei com ouro, incenso e mirra!), realizaram um exercício de humildade cultural, religiosa e política importante: acolheram em suas vidas o Menino Deus rejeitado pelos judeus, a sua nação.

Os festeiros que guardam a tradição do “Dia de Reis” preservaram a lição do interesse pelo estrangeiro e do esforço para conhecer o seu projeto de vida boa, podendo nos inspirar, também, no tratamento das pessoas que mesmo não sendo “uma das nossas”, merece nossa consideração e o melhor que temos para lhes oferecer: os “reiseiros”, o nome pelo qual eu próprio os conheço desde cedo na fazenda, repetem todos os anos e estimular a experiência da visita à “lapinha de Belém”. A visita, como Kant nos ensina, é de fato uma experiência edificante para a humanidade, pois sem nunca pretender substituir a lei do hóspede pela do dono da casa ou a deste pela do visitante, ajuda a partilhar este patrimônio comum da humanidade que é a terra. Neste tempo em que não faltam pessoas alucinadas acreditando que têm uma vida superior à das outras, por vezes se remunerando no trabalho de profanar outras vidas e pedir que o Estado substitua suas leis pelas que esses “reformadores do mundo” acreditam, Santos Reis lhes ensina que a casa do estrangeiro é um templo sagrado que não se pode violar.

Você já prestou atenção que os reiseiros cantam primeiro no terreiro da casa, terminando sempre com um “Viva Santos Reis e os donos da casa”? A soleira da porta só é adentrada quando se ouve o “Viva” que vem de dentro, a senha que indica que a nossa mensagem interessa ao morador e podemos nos apresentar, como um estrangeiro, claro, mas como aquele hóspede indiano que vai ao encontro do anfitrião e se abraçam com uma mística saudação: “O deus que está em mim saúda o deus que está em você”. Amém.

Doutor, mestre e especialista em Ciências Jurídico-Filosóficas pela Faculdade de
Direito da Universidade de Coimbra. Professor da Faculdade de Direito da
UFBA, nas disciplinas de Filosofia, Ética, Teoria e Hermenêutica
Jurídica. Advogado.

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