Sólon, poeta, legislador e um dos sete sábios da Grécia: o que ele poderia nos ensinar neste momento decisivo da democracia brasileira?


                                                                                                   Antonio Sá da Silva

O baixo nível das eleições deste ano desafia cada um de nós a pensar numa questão que já me incomoda faz algum tempo: o nível de nossos eleitores é assim tão ruim porque nossos partidos são ruins ou nossos partidos são ruins porque nossos eleitores são péssimos? A reflexão é oportuna porque salvo algumas exceções, a esquizofrenia dos diferentes fundamentalismos de direita e de esquerda está levando a nossa jovem democracia a nocaute; isto explica, por exemplo, o fato de que ao invés de discutirmos os projetos de país de cada candidato, ocupamos nosso tempo com uma disputa inusitada: a de saber quem é capaz de produzir mais fake news contra o adversário. Quem não se impressionou, ainda, com o fato de pessoas supostamente esclarecidas passarem adiante tantas informações falsas (inclusive as já periciadas), somente para espalhar o ódio contra os candidatos que não apreciam? O tempo da chamada pós-verdade parece ter chegado para ficar!

Quando o poeta Sólon (séc. VI a. C) foi chamado para redigir a constituição ateniense (nesse tempo os gregos ainda não tinham inventado a democracia), havia uma disputa entre partidos que ameaçava despedaçar a cidade; seus conselhos foram tão notáveis que Jaeger, um alemão especializado em cultura grega, disse que aquele sábio foi uma espécie de coluna fundamental que salvou os gregos de uma desgraça histórica; seus versos ficaram impressos na alma da juventude, sendo assim evocados nos tribunais e nas assembleias populares durante muito tempo. O motivo desse êxito: primeiro, convenceu os atenienses de que havia um interesse maior a ser preservado que a disputa entre os partidos; mas, principalmente, ajudou seu povo perceber que a lei e as instituições públicas (nunca a guerra e a ignorância) era o único caminho para melhorar a vida das pessoas. Os ricos que queriam implodir a cidade por causa da ascensão dos pobres, assim como os pobres que queriam escorraçar os ricos do poder de uma vez por todas, convenceram-se de que a estabilidade é o único lugar onde habita a prosperidade.

O compromisso de quem pretende dirigir uma nação, como Jaeger ensina do exemplo de Sólon, deve ser o de intervir com suas próprias palavras e gestos contra “a luta cega de interesses em que os seus concidadãos se devoram”. Nosso legislador, neste caso, mostrou que o castigo mandado pelos deuses era implacável e seria a seguinte quando a insensatez está em campo: “a desordem que toda a violação do direito gera no organismo social”. E mais: “Num Estado assim nascem disputas partidárias e guerras civis, os homens reúnem-se em associações que só conhecem a violência e a injustiça, grandes bandos de miseráveis vêem-se na necessidade de abandonar a pátria e peregrinar em servidão”. O poeta nos mostrou, com toda clareza, que a luta do povo contra todas as formas de opressão é inevitável, que a ganância dos poderosos para se darem bem é uma empresa inútil: seja deles ou de sua descendência, o preço da injustiça será sempre cobrado.

O melhor governo que daqui se infere é o que não finge que a luta pela sobrevivência não é um problema dele, que cada grupo social deve resolver seus problemas, servindo-se da fraude, da guerra e de outros instrumentos que o mais forte pode utilizar contra o mais fraco; o que Sólon mostra é que o Estado só tem razão de ser (que os cidadãos arcam com o alto custo do Estado!) quando serve para evitar o caos social: se cada pessoa tiver que cuidar de si (defender-se do criminoso, da ganância do patrão, do machismo, do racismo, etc.), seria mais inteligente custear uma facção que defendesse seu interesse: a associação dos ricos contra os pobres e vice-versa, a dos cristãos contra os não cristãos, a dos brancos contra os negros, a das mulheres contra os homens, a dos sulistas contra os nortistas e vice-versa, etc. Depois de 2.600 anos que essas palavras foram proferidas por um dos sete sábios da Grécia, depois de 26 séculos de civilização, não posso acreditar que a humanidade não tenha aprendido nada com o próprio sofrimento. Não é hora de brincar com coisa séria, chega de infantilidade de alguns, instintos suicidas de outros e flagrante ausência de caráter dos demais; divergências políticas se resolvem no debate, não no grito!

Doutor, mestre e especialista em Ciências Jurídico-Filosóficas pela Faculdade de
Direito da Universidade de Coimbra. Professor da Faculdade de Direito da
UFBA, nas disciplinas de Filosofia, Ética, Teoria e Hermenêutica
Jurídica. Advogado.

 

 

One thought on “Sólon, poeta, legislador e um dos sete sábios da Grécia: o que ele poderia nos ensinar neste momento decisivo da democracia brasileira?”

  1. Parabéns Antônio Sá. Em momentos de campanha eleitoral, essa reflexão é de fundamental importância para os eleitores analisar e observar os Projetos propostos para o país. Infelizmente é desesperador o que está se passando atualmente em nossa sociedade.

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